a batalha silenciosa pela autonomia feminina no espaço público

Como mulher que transita entre os universos da psicologia, da pedagogia e, atualmente sobretudo, do serviço público, testemunho diariamente uma batalha que, embora invisível para muitos, é visceral para quem a vive: a luta pela validação do trabalho feminino em um espaço historicamente masculinizado. Não se trata apenas de ocupar cadeiras, mas de desmantelar um olhar viciado que insiste em nos relegar aos bastidores, mesmo quando somos as protagonistas no palco.

O Mito da Tutela: A Sombra Masculina sobre a Competência Feminina

É exaustivo, para dizer o mínimo, ver o reconhecimento do nosso trabalho ser invariavelmente condicionado à sombra de uma figura masculina. Quando uma mulher ascende a um cargo de liderança, quando sua voz técnica se destaca em um debate complexo, ou quando um projeto sob sua coordenação alcança o sucesso, a primeira pergunta que ecoa nos corredores do poder não é “Como ela conseguiu?”, mas “Quem a colocou lá?”.

Esse é o mito da tutela, um dispositivo perverso que nega a autonomia intelectual e profissional da mulher. Nossos méritos são sistematicamente atribuídos a um “padrinho político”, a um “mentor” ou, na pior das hipóteses, a um relacionamento pessoal. É como se a competência feminina fosse um reflexo, nunca uma luz própria. Essa narrativa não apenas desmerece anos de estudo, dedicação e experiência, mas também reforça a ideia anacrônica de que a mulher é incapaz de trilhar seu próprio caminho sem a chancela de um homem. É uma violência simbólica que mina a autoestima e a credibilidade, um ataque direto à nossa capacidade de agência.

A Invasão do Público: Quando o Privado se Torna Arma

A dicotomia entre o espaço privado (o oikos, o lar, o cuidado) e o espaço público (a polis, a política, o poder) é uma herança patriarcal que ainda nos assombra. Historicamente, o lugar da mulher foi o lar, o privado, o invisível. O espaço público, por sua vez, foi erigido como o domínio exclusivo do homem. Quando ousamos transpor essa barreira, nossa presença é frequentemente percebida como uma “invasão”, um desarranjo da ordem natural.

E é nesse ponto que o ataque se intensifica. O sucesso de uma mulher no serviço público, por exemplo, não é celebrado como um avanço democrático, mas como uma anomalia a ser corrigida. Criam-se jargões e estigmas: somos a “histérica” quando defendemos com paixão nossas ideias, a “mandona” quando exercemos liderança, a “emocional” quando demonstramos empatia. Se somos firmes, somos “agressivas”; se somos ponderadas, somos “fracas”. A mulher é constantemente colocada em um dilema onde qualquer traço de sua personalidade pode ser usado para desqualificá-la.

O Apagamento Ativo: A Estratégia da Deslegitimação

O que observamos não é um mero descuido, mas um apagamento ativo, uma estratégia deliberada para deslegitimar a presença e o trabalho da mulher. A Lei nº 14.192/2021, que combate a violência política de gênero, é um avanço crucial, mas a cultura organizacional ainda se apega a mecanismos sutis e nem tão sutis de silenciamento. O mansplaining (a explicação desnecessária de algo que já dominamos) e o manterrupting (a interrupção constante de nossa fala) são apenas a ponta do iceberg de uma violência institucional que busca nos diminuir e nos calar.

É um ciclo vicioso: o trabalho invisível nos sobrecarrega no privado, e quando tentamos tornar nosso trabalho visível no público, somos atacadas e desmerecidas. A mensagem é clara: “Este não é o seu lugar”.

Por Uma Nova Narrativa: A Visibilidade como Ato de Resistência

Quebrar esse ciclo exige uma resistência contínua. Exige que cada mulher que ocupa um espaço público se recuse a ser silenciada, a ser diminuída, a ter sua autonomia negada. Exige que a sociedade, e em especial as instituições, reconheçam que a competência não tem gênero e que a diversidade de vozes e perspectivas é fundamental para a construção de um serviço público mais justo e eficiente.

O reconhecimento é um direito e a sua competência é fruto de seu próprio esforço e mérito. É hora de desconstruir o olhar viciado e construir uma narrativa onde a visibilidade do trabalho feminino seja a regra, e não a exceção a ser combatida.

Basta de explicações. A verdade é que a sociedade e suas instituições ainda não suportam a imagem de uma mulher que não deve nada a ninguém. Enquanto o sucesso feminino for lido como um “favor” ou uma “concessão” masculina, o espaço público continuará sendo um simulacro de democracia.

Não estamos aqui para pedir licença ou para provar, pela milésima vez, que somos capazes. O convite que deixo é para o desconforto: por que a autonomia de uma mulher ainda soa como uma ameaça? Ocupar o espaço público não é uma invasão; é a retomada de um lugar que nunca deixou de ser nosso, embora tenham tentado nos convencer do contrário. A conta da invisibilidade já passou do prazo de validade.

 

  • Solange R. Aroeira é psicóloga, pedagoga e Secretária da Mulher, Neurodiversidade e Inclusão Social em Cotia-SP. Especialista em neurodiversidade e educação especial, atua há mais de 15 anos nas áreas clínica, educacional e de recursos humanos. Palestrante e autora do livro “Como viramos estrelinhas: Finitude”, dedica-se a promover ações estratégicas para inclusão social e cidadania plena. Redes sociais: @solangearoeira



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